O governo dos EUA autorizou empresas privadas de cibersegurança a realizar operações ofensivas contra organizações criminosas estrangeiras, em uma mudança histórica de política anunciada na quarta-feira. O presidente Donald Trump assinou um memorando de segurança nacional que autoriza empresas selecionadas a conduzir ataques cibernéticos contra ameaças transnacionais — a primeira vez que o governo autoriza o setor privado a realizar operações ofensivas desse tipo.
Como funcionará o sistema
De acordo com o memorando, as empresas devem ser previamente aprovadas e qualificadas para participar do programa. Cada operação precisará de autorização federal e de uma fiança de US$ 1 milhão, garantindo que as ações sejam realizadas dentro de limites estritos. O objetivo é combater o crescente volume de ameaças cibernéticas transnacionais, que incluem ransomware, fraude financeira e espionagem digital.
A CNN caracterizou a medida como o recrutamento de “cyber privateers” — hackers privados autorizados pelo governo — e destacou que a decisão pode trazer riscos legais significativos para as empresas envolvidas. Segundo especialistas, a política coloca os EUA em território inexplorado em termos de direito internacional.
Um cenário de ameaças crescente
A decisão vem em meio a um aumento dramático de ataques cibernéticos contra infraestruturas críticas. Em 2024, investigadores identificaram suspeitas de hacks iranianos atingindo sistemas de água em 12 estados dos EUA, conforme apontaram reportagens da época. O setor de saúde também tem sido alvo frequente, com hospitais e clínicas sofrendo ataques de ransomware que interrompem serviços essenciais.
Segundo o New York Times, a medida responde à frustração do governo com a incapacidade de perseguir efetivamente criminosos cibernéticos operando de países com legislação frouxa ou que não cooperam com extradições.
Implicações para o Brasil
No Brasil, a autorização americana pode ter repercussões diretas. Empresas brasileiras de cibersegurança poderão ser chamadas a participar do programa se tiverem operações nos EUA, enquanto organizações criminosas que atuam contra alvos brasileiros poderão ser alvo de operações ofensivas americanas.
O país já enfrenta desafios significativos em segurança cibernética. Em agosto de 2026, uma registradora ligada à Stone foi alvo de tentativa de fraude de R$ 350 milhões em pagamentos de cartão, demonstrando a vulnerabilidade do sistema financeiro brasileiro a ataques sofisticados.
Riscos e controvérsias
Apologistas da segurança digital alertam que a política pode escalar conflitos cibernéticos. A autorização de empresas privadas a conduzir ataques ofensivos pode levar a retaliações de estados-nação e a um ciclo de violência digital difícil de conter. Além disso, a responsabilidade legal em caso de erros — como ataques a infraestruturas civis ou violações de soberania de outros países — ainda não está claramente definida.
O memorando estabelece que as operações devem ser direcionadas exclusivamente a organizações criminosas transnacionais, não a governos estrangeiros. Porém, a linha entre criminalidade organizada e operações patrocinadas por estados nem sempre é clara no mundo cibernético.
Enquanto isso, o setor privado prepara-se para um novo papel na defesa digital, enquanto especialistas debatem se a autorização de “hackeio ofensivo” representa uma evolução necessária ou o início de uma era perigosa na guerra cibernética.
