O núcleo fundido da Terra mudou de direção de forma inesperada sob o Oceano Pacífico em 2010 — e os cientistas ainda não sabem explicar por quê. Dados de satélites da Agência Espacial Europeia (ESA) revelaram que uma grande região de material fundido, que historicamente fluía para oeste, passou a se mover fortemente para leste, desafiando a ideia de que a circulação no núcleo externo é relativamente estável.
O estudo, publicado no Journal of Studies of Earth’s Deep Interior, mostra ainda que o fluxo para leste já está enfraquecendo desde 2020. Isso levanta a possibilidade de que a inversão seja temporária ou faça parte de um ciclo natural mais longo no funcionamento do núcleo.
O que aconteceu no núcleo da Terra
O núcleo externo do planeta fica cerca de 2.200 km abaixo da superfície. O movimento do ferro líquido condutor de eletricidade nessa região gera o campo geomagnético da Terra. Por muitos anos, os cientistas que estudavam pequenas variações nesse campo concluíram que grande parte do núcleo externo fluía principalmente para oeste.
Esse padrão mudou dramaticamente em 2010. Sob o Pacífico equatorial, uma ampla área de fluido rico em ferro saiu de um fluxo fraco para oeste e passou a se mover fortemente para leste. A causa da inversão ainda é um mistério.
Como os satélites ajudaram a detectar a mudança
As observações por satélite, incluindo medições das missões Swarm e CryoSat, da ESA, permitiram que os pesquisadores estudassem o evento em detalhes. O estudo combina observações de solo com medições por satélite coletadas de 1997 a 2025, usando dados das missões Swarm e CryoSat, além da missão alemã CHAMP e da missão Ørsted.
A análise mostrou que uma ampla região de fluido abaixo do Pacífico equatorial mudou de um fluxo fraco para oeste para um fluxo forte para leste em 2010. Os cientistas conseguiram reconstruir os padrões de fluxo em mudança perto da fronteira entre o núcleo e o manto e identificar as mudanças abruptas associadas à inversão do Pacífico e ao “jerk” geomagnético de 2017 — um tipo de mudança abrupta na taxa de variação do campo magnético.
Uma circulação mais rápida do que se pensava
Os cientistas geralmente viam a circulação em larga escala no núcleo externo como relativamente estável. A mudança repentina sob o Pacífico sugere que o sistema pode variar muito mais rapidamente do que se acreditava. As descobertas oferecem novas pistas sobre os movimentos turbulentos responsáveis por produzir o campo magnético da Terra.
Elas também podem apontar conexões entre a atividade no núcleo externo e mudanças que acontecem ainda mais fundo no planeta. O autor principal do estudo, Frederik Dahl Madsen, da Universidade de Edimburgo, explicou que o surgimento do fluxo forte para leste no Pacífico é contemporâneo a uma mudança de comportamento no núcleo interno, observada por meio de geodésia e sismologia. A hipótese é que essas mudanças no interior profundo estejam associadas às alterações no fluxo sob o Pacífico.
O que isso significa para a ciência
A inversão do fluxo no núcleo desafia a suposição de que o núcleo externo é dominado por uma circulação estável para oeste. Segundo Elisabetta Iorfida, cientista da missão Swarm da ESA, o estudo mostra que mudanças regionais podem surgir rapidamente — em apenas uma década.
“As descobertas podem ajudar os cientistas a investigar possíveis interações entre o núcleo externo, o núcleo interno e o manto inferior, dando mais informações sobre a fronteira núcleo-manto, uma região crítica para a dinâmica do interior da Terra”, disse Iorfida.
Os pesquisadores agora querem entender se a inversão representa uma flutuação de curta duração, parte de uma oscilação repetitiva ou um novo equilíbrio estável para a circulação do núcleo. “O monitoramento contínuo será essencial para determinar como o fluxo evoluirá nos próximos anos”, afirmou Madsen.
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Mais detalhes estão no comunicado da ESA.
