Uma constelação global de detectores de neutrinos está criando uma visão inédita do interior da Terra ao medir os chamados geoneutrinos — partículas subatômicas produzidas pelo decaimento de elementos radioativos que aquecem o planeta. Os dados podem revelar se o manto terrestre é uniforme ou se esconde grandes estruturas de material anômalo, com implicações diretas para a compreensão das placas tectônicas e do campo magnético.
A pesquisa foi apresentada em estudo publicado em 7 de agosto na revista Quanta Magazine. O marco mais recente aconteceu em novembro de 2025, quando o detector SNO+, instalado em uma mina no Canadá, registrou sua primeira leva de geoneutrinos — os primeiros medidos no hemisfério ocidental, o que abre uma nova perspectiva sobre o interior radioativo do planeta.
O que são geoneutrinos
Geoneutrinos são partículas produzidas no decaimento de urânio, tório e potássio presentes nas rochas do manto e da crosta terrestre. O calor gerado por esse processo é uma das duas fontes que mantêm o planeta quente — a outra é o calor residual da formação da Terra. Sem essa segunda fonte, o planeta teria esfriado há muito tempo e se tornado tectonicamente morto.
Contar geoneutrinos é a única forma direta de medir esses elementos geradores de calor, que são essenciais para o funcionamento do motor térmico que move as placas tectônicas. Porém, são partículas extremamente difíceis de capturar: depois de décadas de busca, os cientistas registraram apenas algumas centenas delas em todo o mundo.
Detectores em três continentes
A primeira detecção de geoneutrinos foi feita em 2005 pelo detector KamLAND, no Japão. Em 2009, o Borexino, na Itália, registrou mais algumas dezenas. A lista de experimentos cresce agora com o SNO+, no Canadá, e deve ganhar reforço do JUNO, na China, que espera reportar suas primeiras detecções ainda neste ano.
O JUNO, enterrado sob uma montanha perto de Guangzhou, na China, é tão grande que deve detectar mais geoneutrinos em seu primeiro ano do que a soma do que KamLAND, Borexino e SNO+ capturaram em décadas. Com mais de 20 mil toneladas de cintilador líquido, ele oferecerá a visão mais rica já obtida do interior do planeta.
O que os dados podem revelar
As medições em locais diferentes podem indicar que o manto não é uniforme, como os geoquímicos costumam assumir. As regiões que parecem produzir mais geoneutrinos ficam acima de grandes blocos de material denso e quente, conhecidos como províncias de baixa velocidade sísmica (LLSVPs), um abaixo da África e outro abaixo do Oceano Pacífico.
Uma das hipóteses é que essas estruturas concentrem tipos específicos de elementos. Para avançar, os pesquisadores defendem a construção de um detector no fundo do oceano, longe das rochas continentais ricas em elementos radioativos, que confundem as medições. O projeto, estimado em centenas de milhões de dólares, ainda não tem financiamento, mas pode ganhar tração na China, que já aprovou outros grandes projetos de geociências.
A pesquisa se soma aos avanços recentes na exploração do Sistema Solar, como os helicópteros SkyFall que vão mapear o gelo subterrâneo de Marte e o estudo que aponta que o abacate muda de sexo ao longo do dia. Os detalhes completos estão no artigo original da Quanta Magazine.
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