Uma nanopartícula desenvolvida por pesquisadores da Universidade de Tecnologia de Sydney, de Harvard e universidades chinesas pode representar um avanço no tratamento do glioblastoma, a forma mais agressiva de câncer cerebral. O material, descrito como uma plataforma de “golpe duplo”, consegue tanto auxiliar na visualização do tumor durante a cirurgia quanto destruir células cancerosas residuais após o procedimento.
Como funciona a nanopartícula
A plataforma utiliza uma fina folha bidimensional contendo átomos posicionados individualmente, depositados um a um usando um método adaptado da fabricação de semicondutores. Essa estrutura permite que o material realize duas funções separadas, ambas ativadas pela mesma luz infravermelha próxima.
“Projetamos um único material que realiza dois trabalhos em sequência”, explicou o professor Bingyang Shi, da UTS, em publicação no SciTechDaily. “É um guia preciso para o cirurgião durante a operação, e depois um tratamento de limpeza direcionado.”
Duas etapas, um material
Na primeira etapa, durante a cirurgia, o material funciona como um agente de imagem altamente sensível. Um corante fluorescente acoplado à folha brilha sob uma wavelength infravermelha invisível ao olho nu, permitindo que cirurgiões vejam aglomerados de células tumorais tão pequenos quanto 44 micrômetros — uma resolução superior às ferramentas de imagem clínicas atuais.
Na segunda etapa, após a remoção do tumor visível, o mesmo material é administrado na cavidade cirúrgica e reativado pela mesma luz. Átomos de platina no material convertem o peróxido de hidrogênio do próprio tumor em oxigênio, combatendo o ambiente de baixo oxigênio que normalmente protege as células cancerosas do tratamento. Simultaneamente, a luz gera calor e moléculas reativas que destroem células microscópicas que a cirurgia não conseguiu alcançar.
Resultados em modelos animais
Em modelos de glioblastoma em camundongos, o tratamento inibiu a recorrência do tumor após a cirurgia. Todos os camundongos tratados estavam vivos após 60 dias, comparado a uma sobrevida de 42 dias nos animais que receberam apenas cirurgia. Testes de acompanhamento não detectaram déficits neurológicos ou motores causados pelo tratamento.
O glioblastoma tem uma taxa de sobrevida em cinco anos de apenas cerca de 7%, tornando-o um dos cânceres com pior prognóstico. A capacidade de remover microscopicamente mais células cancerosas durante e após a cirurgia pode reduzir significativamente a recorrência, que permanece um dos maiores desafios para pacientes.
Próximos passos
Os pesquisadores reconhecem que os resultados ainda são preliminares e foram obtidos em camundongos, não em humanos. Será necessário confirmar se o desempenho de imagem e terapêutico pode funcionar na escala muito maior de um cérebro humano antes de avançar para testes clínicos.
