Pesquisadores da NASA e da Universidade de Maryland descobriram que micróbios trazidos da Terra podem sobreviver nas sombras profundas perto do polo sul da Lua por até uma semana. A pesquisa, publicada na revista Science Advances, acende um alerta para as próximas missões de exploração lunar e do planeta Marte.
Refúgios nos cantos escuros da Lua
Na superfície da Lua, as temperaturas extremas e a intensa radiação ultravioleta tornam o ambiente hostil. Mas as sombras permanentes de crateras e encostas perto do polo sul oferecem proteção contra a luz do Sol. Segundo o novo modelo computacional, bactérias e fungos trazidos por astronautas encontrariam ali condições temporárias de sobrevivência.
A equipe liderada pelo cientista planetário Prabal Saxena, do Goddard Space Flight Center da NASA, simulou como a radiação atinge o relevo lunar. “Precisamos entender o que existia lá antes de nós”, disse Saxena. “Quando formos a Marte procurar sinais de vida fora da Terra, vamos querer ter certeza de que o que encontrarmos não é coisa que levamos daqui.”
Contaminação invisível
Os humanos vivem liberando micróbios pelo corpo. Um pedaço de pele do tamanho de uma unha, por exemplo, pode conter cerca de um milhão de bactérias. Isso significa que uma simples pegada de astronauta pode deixar centenas de milhões de bactérias vivas na poeira lunar.
“Quando criamos mapas lunares com roxo, vermelho e azul representando as diferentes espécies de micróbios que sobrevivem, ficamos surpresos com o quanto as cores se espalharam”, contou o coautor Stefano Bertone, da Universidade de Maryland. “Tanto para ‘nada pode sobreviver na Lua’.”
Quem consegue aguentar mais
Dentre os organismos estudados, o fungo Aspergillus se destacou pela resistência à radiação UV, podendo sobreviver em até 30% das áreas que recebem alguma luz solar durante o inverno lunar. Todos os cinco micróbios analisados tiveram locais potencialmente habitáveis nas três regiões modeladas.
Os cientistas ressaltam que sobreviver não significa crescer. Nessas condições, os organismos permaneceriam em estado dormente, e só poderiam se multiplicar se o ambiente mudasse. Ainda assim, a sobrevivência é um primeiro passo importante — e um ponto de atenção para qualquer plano de exploração.
Por que a Lua importa para a ciência
Estudar como os micróbios da Terra se comportam nas sombras lunares pode ajudar a entender os limites da vida e a proteger futuras pesquisas contra contaminação. Com a missão Artemis III mirando o polo sul, o tema ganha ainda mais urgência.
O desafio das regiões polares
Como a Lua tem uma inclinação de eixo muito pequena, o Sol permanece sempre baixo no horizonte perto dos polos. Qualquer elevação do terreno pode bloquear a luz de depressões e áreas mais baixas, criando sombras frias e escuras que preservam água e reduzem a radiação. Essa característica explica por que, mais cedo ou mais tarde, a exploração humana vai se concentrar justamente nessas regiões.
Estudos anteriores concluíram que a sobrevivência microbiana era improvável nos pontos já visitados na Lua, principalmente perto do equador. Os novos modelos, porém, mostram que essa conclusão não valia para os polos, onde a ondulação do relevo cria abrigos naturais.
Como os cientistas mapearam as sombras
Um dos métodos usados foi o ray tracing, técnica que segue o caminho da luz e modela reflexos, refrações e sombras. Combinado a mapas de elevação do Lunar Orbiter Laser Altimeter, ele permitiu mapear com precisão onde a radiação UV chega e onde fica de fora.
Os pesquisadores planejam agora aperfeiçoar os modelos de iluminação e ampliar os experimentos com micróbios. O objetivo é ter um quadro cada vez mais claro do que os humanos deixam para trás no espaço — e do impacto disso nas pesquisas futuras.
Quem acompanha os avanços científicos pode se interessar também pelos estudos sobre como microrganismos sobrevivem em condições extremas no espaço e como a genética ajuda a desvendar a evolução das espécies.
