Há 100 anos, em 15 de julho de 1926, a cientista Marie Curie desembarcava no porto do Rio de Janeiro, a convite do Instituto Franco-Brasileiro de Alta Cultura. A franco-polonesa, já consagrada com dois Prêmios Nobel — um de Física e outro de Química —, permaneceu mais de 40 dias no Brasil, numa passagem que marcou a ciência nacional e a presença feminina na pesquisa.
Recepção histórica e cobertura intensa
A chegada de Curie foi cercada de grande expectativa e recebeu ampla cobertura da imprensa da época. Personalidades da ciência e da sociedade brasileira participaram da recepção, entre eles representantes da Academia Brasileira de Ciências e da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, organização presidida pela bióloga e feminista Bertha Lutz.
Curie veio acompanhada pela filha Irène Curie, também pesquisadora. Durante toda a estada, a cientista cumpriu uma agenda intensa, que misturava compromissos científicos, encontros com autoridades e visitas a instituições de pesquisa, ensino e cultura.
Um roteiro pelos centros de ciência do Rio
No Rio de Janeiro, Marie Curie visitou o Museu Nacional, o Jardim Botânico e outras instituições científicas. No Museu Nacional, foi acompanhada por cientistas brasileiras como Bertha Lutz e Heloísa Alberto Torres, um encontro que também simbolizava a crescente participação das mulheres na ciência do país.
O núcleo da agenda científica se concentrou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, onde Marie Curie ministrou 11 aulas sobre radioatividade. A filha Irène participava das atividades experimentais. As aulas, um feito raro para a época, também foram transmitidas pela Rádio Sociedade Brasileira.
O legado para a ciência brasileira
A passagem de uma cientista com o prestígio de Curie ajudou a impulsionar a ciência brasileira e deu visibilidade às mulheres no campo da pesquisa, num momento em que a física e a química experimentavam avanços acelerados. Sua visita é lembrada até hoje em projetos que recuperam a memória e o legado da pesquisadora para o país.
Os estudos de radioatividade que Curie ajudou a consolidar dialogam com descobertas muito mais recentes, como o uso de neutrinos para observar a Via Láctea e os avanços que conectam fenômenos de altíssimas energias a novas tecnologias. A ciência, no fundo, seguiu trilhando o caminho aberto por pioneiras como ela.
De certa forma, a trajetória de Curie antecipou o debate atual sobre como a ciência lê a história humana com novas ferramentas. Um século depois, a curiosidade que guiou a cientista continua inspirando pesquisas de ponta.
