Um estudo conduzido por pesquisadores das universidades Rice e Northwestern, nos Estados Unidos, mostra uma abordagem nova para lidar com o jet lag e o trabalho em turnos. A proposta é um implante de células modificadas, que liberam um hormônio ligado ao metabolismo e ajudam o relógio biológico a se ajustar mais depressa quando a rotina é bagunçada. Os resultados foram publicados na revista Advanced Science.
Como funciona a terapia
Os cientistas usaram células da retina humana modificadas para produzir leptina, hormônio conhecido por sua função na regulação do apetite e do metabolismo. As células foram encapsuladas em microesferas de alginato, um material que as protege do sistema imunológico, mas permite que as proteínas terapêuticas cheguem ao corpo.
Com uma única injeção subcutânea, as células elevam temporariamente os níveis de leptina na corrente sanguínea antes de perderem gradualmente a viabilidade. A ideia é oferecer um impulso passageiro, suficiente para acelerar a adaptação, sem efeito prolongado.
Por que o metabolismo importa no sono
O jet lag e o trabalho em turnos jogam o relógio interno do corpo para fora dos trilhos por dias, atrapalham o sono, mexem com o metabolismo e aumentam o risco de problemas de saúde. As estratégias atuais dependem bastante de comportamentos bem cronometrados, como exposição à luz, horários de refeição ou uso de melatonina.
“Queríamos explorar se uma terapia celular temporária poderia oferecer uma forma mais prática de ajudar o corpo a se adaptar a mudanças de agenda”, explicou Omid Veiseh, professor de bioengenharia da Rice e diretor da Rice Biotech Launch Pad, que apoiou o trabalho junto com a Northwestern.
Resultados nos testes
Em experimentos com camundongos, os animais que receberam as células se ajustaram bem mais rápido aos avanços e atrasos no ciclo claro-escuro. Quando a rotina foi atrasada em quatro horas, os tratados se adaptaram 50% mais rápido que os do grupo de controle.
Os pesquisadores repetiram o teste em macacos cynomolgus para verificar se os resultados se sustentariam em modelos mais próximos dos humanos. Embora seja um estágio inicial, o avanço em dois tipos de animais é um sinal positivo para pesquisas futuras.
Sono e relógio biológico na era digital
O estudo reforça uma ligação ainda pouco explorada entre metabolismo e ritmo circadiano. “Metabolismo e ritmos circadianos estão profundamente conectados, mas o potencial terapêutico dessa relação permanece pouco estudado”, afirmou Martha Hotz Vitaterna, professora de neurobiologia da Northwestern e coautora do trabalho.
A descoberta chega em um momento em que a atenção ao sono cresce, inclusive no mundo da tecnologia. Dispositivos de monitoramento, por exemplo, ganharam espaço como ferramenta para entender melhor os ciclos de descanso, como mostram os wearables conectados a sistemas de saúde e monitoramento de sono.
Um caminho ainda longo
Os autores ressaltam que o tratamento ainda está longe de chegar às farmácias. É uma prova de conceito em modelos animais, e não um produto final. O próximo passo é entender como a terapia se comporta em testes com doses e prazos diferentes, além de investigar possíveis efeitos colaterais.
Para quem sofre com viagens de fuso horário ou turnos noturnos, a notícia é um vislumbre do que pode vir a se tornar uma ferramenta prática. O tema se conecta a outras pesquisas que buscam melhorar a saúde e a cognição, como os estudos sobre o impacto de nutrientes na memória.
