Pesquisadores da Universidade da Costa do Sol (UniSC), na Austrália, capturaram as primeiras filmagens de golfinhos-nariz-de-garrafa usando conchas marinhas vazias como ferramenta de caça, um comportamento chamado “shelling”. As imagens foram registradas no Great Sandy Marine Park, em Hervey Bay, Queensland, e publicadas na revista Marine Mammal Science em agosto de 2026.
Como funciona o “shelling”
O comportamento consiste em perseguir peixes para dentro de uma concha grande, levantar a concha até a superfície e sacudi-la para drenar a água e engolir o peixe preso dentro. Os pesquisadores observaram várias ocorrências do shelling entre julho e outubro de 2025, documentando o processo com câmeras subaquáticas e drones.
O achado mais significativo é que uma fêmea adulta e seu filhote foram observados realizando o shelling em conjunto. Minutos depois de a mãe soltar a concha, o filhote a pegou e passou a manipulá-la da mesma forma — a primeira evidência publicada de “transmissão social materna” dessa habilidade em golfinhos. Esse resultado desafia a crença de que esses animais aprendem ferramentas apenas com seus pares.
Convergência evolutiva entre populações distantes
Registros fotográficos anteriores indicam que o shelling ocorreu na região em 2013 e 2019, mas só agora foi documentado cientificamente. Os pesquisadores destacam que golfinhos de lados opostos da Austrália, mais de 6.000 km de distância, aprenderam a usar ferramentas da mesma forma, provavelmente de forma independente, sugerindo que a capacidade de inovar pode ser mais comum entre golfinhos do que se imaginava.
O estudo também levanta questões sobre a origem cultural desses comportamentos. Se golfinhos de regiões tão distantes desenvolveram a mesma técnica de forma independente, pode ser que a pressão seletiva para usar ferramentas seja maior do que se pensava em ambientes costeiros rasos. Os autores sugerem que o shelling pode ter evoluído múltiplas vezes em diferentes populações, semelhante ao que acontece com comportamentos culturais em outras espécies inteligentes.
Segundo os pesquisadores, a documentação do shelling é particularmente desafiadora porque o comportamento ocorre rapidamente e em águas rasas, onde é difícil posicionar equipamentos de filmagem. As imagens obtidas em 2025 foram possíveis graças ao uso de drones subaquáticos equipados com câmeras de alta resolução, que permitiram registrar o processo completo desde a captura do peixe até a ingestão. A equipe planeja retornar à região em 2027 para ampliar a amostragem e investigar se o shelling se espalhou para outras populações de golfinhos na costa australiana.
Essa descoberta se soma a uma série de achados sobre inteligência animal, incluindo o recente estudo sobre nova espécie de sapo descoberta em poços de betume, que reforça a importância da biodiversidade terrestre.
