Uma análise genética revelou uma nova espécie de baobá que existe apenas em Madagascar. Pesquisadores da Universidade de Wisconsin-Madison reconheceram o baobá Adansonia bozy como uma espécie própria e incomum da ilha, conforme estudo publicado na revista Taxon. Antes, essas árvores eram classificadas dentro de outra espécie malgaxe, a Adansonia za.
Duas árvores, um segredo
Os baobás do norte de Madagascar pareciam idênticos entre si. Por isso, eram tratados como parte de uma única espécie. O novo estudo, no entanto, mostrou que as populações mais ao norte guardam diferenças genéticas profundas o bastante para merecerem um nome próprio.
De acordo com o levantamento, apesar da aparência parecida, esses baobás são mais próximos de outros grupos do norte da ilha do que da espécie com a qual eram agrupados.
O que mudou na contagem
O baobá cresce de forma natural na Austrália, na África continental e em Madagascar. Antes da reclassificação, a ciência reconhecia oito espécies no mundo: uma na Austrália, uma na África e seis em Madagascar. Agora, o número em Madagascar sobe para sete.
A descoberta surpreendeu até os especialistas. “É impressionante que ainda estejamos respondendo perguntas básicas sobre quantas espécies de baobá existem”, afirmou a pesquisadora Nisa Karimi, primeira autora do trabalho.
Um trabalho de escalada
Coletar as amostras genéticas não foi fácil. Como várias espécies são quase idênticas nas folhas, os cientistas precisaram observar as flores para identificar cada árvore. E as flores abrem ao anoitecer, em galhos que podem ficar a mais de 30 metros de altura.
A equipe, que incluiu o botânico David Baum, especialista com mais de 40 anos de estudo dos baobás, teve que usar equipamento de escalada para subir e descer dos troncos gigantes. Só assim foi possível pegar as folhas para análise.
DNA difícil de extrair
No laboratório, outro desafio surgiu. As folhas do baobá têm muitas substâncias pegajosas, o que fragmentava o DNA durante a extração. Depois de muita tentativa e erro, a equipe desenvolveu um método para obter material genético de qualidade.
Com o DNA em mãos, usaram uma técnica chamada captura de sequências, capaz de ler centenas de genes de uma vez e comparar o parentesco entre espécies. Foi assim que o parentesco entre os caminhos evolutivos das espécies ficou claro.
Impacto na conservação
Separar o A. bozy não é só curiosidade científica. A nova espécie é considerada ameaçada, e em Madagascar o dinheiro para conservação costuma priorizar espécies em perigo. Reconhecer o baobá de forma separada pode liberar recursos para protegê-lo.
A mudança também mexe com a A. za. Sem as populações agora alocadas ao novo grupo, ela passa a ter uma distribuição e uma população conhecidas menores, o que pode levar à reavaliação do status de proteção dela. A lição é a mesma usada em estudos sobre como os organismos se desenvolvem e se diferenciam: nada se conserva bem sem conhecer direito a origem de cada um.
Mais descobertas a caminho
Os cientistas suspeitam que outras espécies desconhecidas ainda existam em áreas remotas de Madagascar. Os resultados também indicam que outro baobá comum, o A. rubropstipa, pode precisar ser dividido em mais de uma espécie.
Para os pesquisadores, o recado é direto: você não consegue proteger aquilo que não sabe descrever e nomear. Cada nova classificação da árvore símbolo de Madagascar aproxima a ciência de preservar essa riqueza única do planeta.
