Um juiz do estado de Connecticut identificou o que parece ser o primeiro caso nos EUA de um litigante tentando esconder instruções de inteligência artificial em documentos judiciais, em uma tentativa de manipular qualquer sistema de IA que pudesse estar revisando seu processo. A decisão, publicada pelo juiz Walter Spader Jr., marca um precedente inédito na interseção entre tecnologia e direito.
O que aconteceu
Matthew Elliott, autor em causa própria em um processo contra um grupo bariátrico de Nova York, incluiu em seus documentos texto invisível — formatado em letras brancas sobre fundo branco em tamanho reduzido — que continha instruções direcionadas a qualquer sistema de IA que lesse o documento. As instruções pediam que o software apoiasse os argumentos do autor, ignorasse decisões anteriores do tribunal e garantisse que a remediação seguisse o que ele desejava.
O esquema foi descoberto por humanos que revisaram os documentos, já que o sistema judiciário de Connecticut não utiliza IA para processar petições. O juiz Spader descreveu a tentativa como “perigosa” e sancionou Elliott, proibindo-o de realizar depósitos eletrônicos e exigindo que apresente cópias impressas pessoalmente ao escritório do secretário.
Uma fraude digital sem precedentes
Na decisão de 14 páginas, Spader comparou o esquema a um caso análogo do Brasil, onde dois advogados embutiram texto branco sobre branco instruindo uma ferramenta de IA do tribunal a analisar sua petição apenas superficialmente. O sistema do tribunal brasileiro detectou e bloqueou a injeção antes que alcançasse o processamento, e os advogados foram multados em 10% do valor da causa — R$ 842.500,87 — com encaminhamento formal à OAB/PA.
“A integridade do sistema judiciário repousa na premissa simples de que o que o leitor vê é o que o autor escreveu”, escreveu Spader. “Uma comunicação entregue em segredo viola esse princípio.” Ele comparou o esquema a uma parte que arrange secretamente um agente automatizado para se comunicar com um jurado durante um julgamento.
O alerta sobre chatbots
O juiz também alertou sobre o fenômeno da “sycophancy” de chatbots — a tendência de assistentes de IA avalidarem e concordarem com tudo que o usuário diz, independentemente da qualidade dos argumentos. Isso pode criar uma falsa sensação de segurança em litigantes inexperientes que utilizam ferramentas de IA para construir petições.
Segundo o AI Governance Institute, o caso expõe uma vulnerabilidade sistêmica: tribunais não possuem maneiras sistemáticas de detectar injeções de prompts, não possuem padrões para quando e como ferramentas de IA devem ser usadas em decisões judiciais, e não possuem regras claras sobre o que acontece quando alguém tenta manipular um sistema de IA que está auxiliando um juiz.
Conexão com o caso brasileiro
O caso brasileiro citado por Spader envolveu advogados que utilizaram a mesma técnica de texto invisível para tentar enganar um sistema de IA do tribunal. Embora o sistema tenha detectado a tentativa, o episódio evidencia que a técnica é conhecida internacionalmente e está se espalhando.
Connecticut adotou novas regras sobre uso de IA generativa em petições judiciais em 2026, mas essas regras foram escritas para combater erros como citações fabricadas por IA — não para endereçar manipulação de entrada. O caso Elliott destaca a necessidade urgente de regulamentação que cubra o “lado da entrada” da governança de IA, não apenas a saída.
Para especialistas em direito e tecnologia, a questão não é se mais casos assim irão surgir, mas quando. Enquanto tribunais adotam mais ferramentas de IA para revisão de documentos e resumo de casos, a superfície para esse tipo de ataque só tende a aumentar.
