A multinacional espanhola Acciona, com receita de 10,1 bilhões de euros no primeiro semestre de 2026 e presença em mais de 40 países, estuda criar uma vertical de data centers no Brasil. A informação foi divulgada pelo CEO da empresa no país, André De Angelo, ao portal NeoFeed. O modelo proposto integra geração de energia renovável, construção e operação de infraestrutura de dados.
Potencial do mercado brasileiro
O Brasil pode atrair investimentos de US$ 92 bilhões em data centers até 2031, segundo projeção da Brasscom. A capacidade instalada atual é de 843 MW, mas deve alcançar 3,1 GW nos próximos cinco anos. De acordo com relatório da JLL, 2026 será um recorde para o setor, com 106 MW contratados no primeiro semestre e previsão de 134 MW até dezembro, movimentando cerca de US$ 8 bilhões.
A taxa de vacância no país é de apenas 4%, o que indica alta demanda por espaço em torres de dados. São Paulo concentra 38% da capacidade nacional, mas outras cidades começam a ganhar destaque. Fortaleza, por exemplo, já tem 227 MW em construção, atraída por custos de energia menores e proximidade com cabos submarinos.
Modelo integrado
A proposta da Acciona é diferenciada porque combina três áreas de atuação da empresa: construção civil, geração de energia limpa e operação de infraestrutura. “O modelo integra energia renovável, construção e operação em um só ecossistema”, explicou De Angelo. A empresa já opera parques eólicos e solares no Brasil, o que reduziria o custo de energia para os data centers.
A estratégia se alinha à crescente demanda por infraestrutura verde. Empresas de tecnologia pressionam por data centers alimentados por fontes renováveis, e a Acciona posiciona-se para atender essa necessidade com um modelo de negócio que reduz a pegada de carbono.
Presença no Brasil
A Acciona já está presente em outros segmentos no país. A empresa participa da construção da Linha 6 do Metrô de São Paulo e atua no saneamento básico por meio de participações na Sanepar, Cesan e Compesa. A entrada no mercado de data centers representaria a quarta vertical de atuação da companhia no Brasil.
A expansão para data centers também depende de incentivos fiscais. O regime Redata, que oferecia benefícios tributários para o setor, expirou em fevereiro de 2026. No Senado, o projeto de lei 278/2026 tramita para restabelecer os incentivos, mas a votação ainda não foi pautada.
Contexto global
A movimentação da Acciona reflete uma tendência de empresas de infraestrutura entrarem no mercado de data centers. Em paralelo, a corrida por inteligência artificial impulsiona a demanda por capacidade de processamento. O mercado de IA, com a Anthropic avaliada em US$ 2 trilhões, exige cada vez mais servidores e energia.
No Brasil, a escassez de chips também afeta o setor. De acordo com analistas, o aumento de preços de novos celulares pela Google reflete tensões na cadeia de suprimentos de semicondutores, que impactam diretamente a capacidade de expansão dos data centers.
Desafios e perspectivas
Apesar do potencial, o setor enfrenta desafios. A burocracia para aprovação de obras, a escassez de profissionais qualificados e a pressão ambiental são obstáculos que a Acciona precisará superar. No entanto, a experiência da empresa em mercados regulados e sua expertise em energia renovável podem ser vantagens competitivas.
Com a possibilidade de entrar no mercado de data centers, a Acciona busca se posicionar em um dos segmentos de maior crescimento no Brasil. Se o projeto se concretizar, a empresa se tornará uma das poucas no país a oferecer uma solução completa de infraestrutura de dados, do fornecimento de energia à operação das torres.
