Um estudo conduzido pela Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis) revelou o mecanismo genético que permite às flores do abacateiro mudar de sexo ao longo do dia. Publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), o trabalho mostra que um único gene, chamado SDMYB, regula a abertura das flores e o ritmo de alternância entre as funções masculina e feminina, um mistério que intrigava botânicos e produtores há mais de cem anos.
Todas as árvores de abacate são hermafroditas, mas suas flores funcionam em momentos diferentes do dia como masculinas, liberando pólen, ou femininas, recebendo pólen. Cerca de metade das árvores, chamadas tipo A, abre flores femininas pela manhã e masculinas à tarde; a outra metade, tipo B, segue o padrão oposto. Esse ritmo sincronizado evita a autopolinização e favorece a troca de pólen entre árvores diferentes.
O gene por trás da troca diária de sexo
A equipe analisou os genomas de centenas de abacateiros cultivados por pesquisadores da Universidade da Califórnia em Riverside e cruzou os dados genéticos com o comportamento de floração das plantas. A comparação permitiu identificar o gene SDMYB, que regula o horário de abertura das flores e cuja expressão oscila ao longo do dia.
O gene existe em duas versões, ou alelos, de forma semelhante aos cromossomos sexuais de várias espécies. Árvores do tipo A carregam uma cópia de cada versão, enquanto árvores do tipo B carregam duas cópias da versão recessiva. “Um alelo desse gene é dominante e apresenta um padrão único de regulação temporal ligado à diferença no horário de abertura das flores entre os tipos A e B”, explicou Jeffrey Groh, primeiro autor do estudo.
Um ritmo de mais de 40 milhões de anos
Ao comparar os genomas do abacate com os de espécies relacionadas, os pesquisadores descobriram que as mesmas duas versões do SDMYB estão presentes em pelo menos 26 espécies de árvores. Isso indica que o mecanismo que alterna as funções masculina e feminina ao longo do dia existe há cerca de 42 milhões de anos e regula a floração muito além do abacate, ajudando a evitar a endogamia em centenas de espécies.
“Ficamos impressionados com a ideia de que essas plantas alternam atividade masculina e feminina ao longo do dia há mais de 40 milhões de anos”, afirmou Graham Coop, professor de evolução e ecologia da UC Davis e autor sênior do estudo. A descoberta abre uma janela para compreender como a reprodução de plantas com flores evoluiu e se diversificou ao longo do tempo.
Como a descoberta ajuda produtores
Para a agricultura, o ganho prático é imediato. Atualmente, para saber se um abacateiro é do tipo A ou B, o produtor precisa esperar a árvore florescer, o que pode levar de 10 a 15 anos. Com os marcadores genéticos identificados no estudo, é possível classificar as mudas ainda no viveiro, acelerando programas de melhoramento genético e o desenvolvimento de novas variedades.
Os produtores costumam plantar uma mistura de árvores tipo A e B para garantir a polinização cruzada. Como o Brasil é um dos maiores consumidores de abacate do mundo, com produção concentrada em estados como São Paulo, a técnica pode acelerar a criação de variedades mais produtivas e adaptadas ao clima brasileiro, reduzindo o tempo de pesquisa.
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Mais detalhes sobre o estudo estão no artigo da UC Davis e na matéria da ScienceAlert.
