Uma cirurgia de substituição do joelho feita com auxílio de um braço robótico é mais precisa do que a técnica tradicional, mas não mostrou, por ora, vantagem na recuperação dos pacientes. A conclusão vem do maior ensaio clínico randomizado já realizado sobre o tema, publicado na revista científica The Lancet.
O maior estudo sobre o tema
O estudo é o RACER-Knee, conduzido pela Universidade de Warwick e pelo Hospital Universitário de Coventry e Warwickshire, no Reino Unido. Ele comparou a artroplastia total do joelho convencional com a cirurgia assistida pelo sistema robótico Mako, um dos mais usados no mundo. Ao todo, o ensaio foi desenhado para seguir de perto a evolução dos pacientes ao longo de vários meses de recuperação.
Segundo os pesquisadores, o braço robótico ajudou o cirurgião a posicionar o implante com maior precisão e a ajustar a operação à anatomia de cada paciente. O problema é que essa exatidão a mais não se converteu, no primeiro ano, em menos dor, mais mobilidade ou recuperação mais rápida.
Robótica já é comum em alguns países
A tecnologia já é utilizada em cerca de 6% das substituições de joelho no Reino Unido. Nos Estados Unidos, esse percentual sobe para 16%, e na Austrália chega a 42%. O avanço reflete o interesse dos hospitais em oferecer um procedimento mais preciso, mesmo diante da dúvida sobre o benefício real para o paciente.
No Brasil, o uso de robótica em ortopedia vem crescendo, ainda que de forma mais lenta e concentrada em hospitais privados de grande porte. A novidade tende a ser enxergada como um diferencial de modernidade, mas o resultado do estudo abre espaço para uma reflexão sobre o custo-benefício.
Resultados do primeiro ano
Um ano depois da operação, pacientes dos grupos robótico e convencional relataram níveis semelhantes de recuperação, mobilidade e dor. Embora a precisão do posicionamento tenha sido maior na cirurgia assistida por robô, essa vantagem não gerou melhora nos resultados clínicos dentro do período acompanhado.
O lado positivo é que os eventos adversos graves não foram mais comuns no grupo robótico. Ou seja, a abordagem se mostrou tão segura quanto o procedimento tradicional, sem risco adicional ao paciente.
O que isso significa na prática
Para quem vai se operar, a mensagem é dupla. A cirurgia assistida por robô não é superior no curto prazo, mas também não faz mal. A escolha entre uma técnica e outra passa a depender menos de promessas de resultado e mais da estrutura, do custo e da experiência do centro onde o paciente será atendido.
Os próprios autores reconhecem que o estudo não encerra a discussão. Eles defendem que a robótica continua sendo um caminho promissor de inovação e que os dados devem estimular novas pesquisas de qualidade. O tema guarda semelhança com outras análises recentes sobre tratamentos modernos, como estudos sobre medicamentos que buscam reverter danos da osteoartrite.
Pesquisa estimulada pelo setor
O estudo foi financiado pelo Instituto Nacional de Pesquisa em Saúde e Cuidados do Reino Unido, em parceria com a Stryker, fabricante do sistema robótico testado. A universidade liderou a coordenação em conjunto com o Hospital Real de Ortopedia de Birmingham.
Segundo um dos coordenadores da pesquisa, o trial é um passo importante para o processo de inovação e deve estimular muitos outros estudos de alto nível. O foco, dizem os pesquisadores, está em entender melhor onde a precisão robótica realmente agrega valor, especialmente quando combinada com novas abordagens de regeneração de cartilagem que vêm sendo pesquisadas.
