O neurocientista Miguel Nicolelis, referência mundial na interface cérebro-máquina, afirmou que a inteligência artificial não faz diferença na vida da pessoa comum e que o marketing do medo tem sido a principal estratégia das empresas do setor para inflar valor de mercado. Em entrevista ao portal Terra, Nicolelis classificou a IA como “construir um futuro sem futuro” por ser baseada apenas no que já aconteceu.
Marketing do medo
Nicolelis explicou que as empresas de IA utilizam o medo como forma de gerar poder e aumentar o valuation. “Quanto mais lorota você contar, e como o mundo hoje acredita em todos os maiores loroteiros da história, o seu valuation aumenta”, afirmou. Para ele, a IA é uma grande ilusão que permanece viva 80 anos depois da criação da cibernética, quando se achava possível reproduzir o cérebro humano em sistemas computacionais.
O neurocientista citou pesquisas norte-americanas que revelam que a grande maioria das empresas que implementaram IA não identificou ganho financeiro — pelo contrário, aumentaram os custos. “Ela custa mais caro que os funcionários que foram demitidos para a mesma função. Então fica muito óbvio que é um jogo de cena”, disse Nicolelis em entrevista ao Terra.
Impactos na cognição
Nicolelis alertou para os efeitos do uso crônico de sistemas de IA sobre as capacidades cognitivas humanas, incluindo criatividade, espontaneidade e atenção. Em países com educação mais avançada, como Suécia e Finlândia, as diretrizes têm sido remover computadores de sala de aula apósnotarem perda de vocabulário, interpretação e raciocínio abstrato nos alunos.
Pesquisas apontam maior retenção de conteúdo para quem toma notas escrevendo à mão do que digitando, reforçando a tese de que a automatização excessiva pode comprometer habilidades fundamentais. Para Nicolelis, a equação deveria considerar se vale a pena ganhar tempo com IA se, em seis meses, a memória estiver definhando e a capacidade de armazenar informação estiver comprometida.
Impacto socioambiental
Além das questões cognitivas e financeiras, Nicolelis destacou o impacto ambiental do uso de IA, que consome grandes quantidades de água e energia elétrica. “Se você levar esse raciocínio até o ponto original, ele questiona se nós temos o direito de acabar com o planeta para fazer um resumo de um trabalho científico mais rápido”, comentou. Para ele, a realidade não é inevitável e existem alternativas ao modelo atual.
O neurocientista, que não se considera “anti-tech”, desenvolveu tecnologias de interface cérebro-máquina ao longo de 40 anos de carreira. A China já incluiu essas tecnologias como prioridade em seu 15º plano quinquenal, e Nicolelis avalia que a Neuralink pode não conseguir competir com o investimento chinês em interface cérebro-máquina.
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