Um contrato de US$ 2 milhões para a publicação de um romance de estreia foi cancelado após suspeitas de que o autor teria utilizado inteligência artificial na escrita. O escritor nigeriano-americano Jerry Adedayo Falade perdeu o acordo com a editora Minotaur, do grupo Macmillan, e viu suas oportunidades de tradução e adaptação cinematográfica desaparecerem em questão de horas.
O que aconteceu
De acordo com o O Globo, o romance policial “Call Me, I’ll Hide the Body” foi alvo de um leilão entre 14 editoras, sendo arrematado pela Minotaur por US$ 2 milhões. No entanto, após rumores de uso de IA, a agência Europa Content decidiu retirar o livro de consideração. Em um e-mail publicado pelo The Guardian, a agência afirmou que “não pode mais corroborar” a afirmação de que o livro foi escrito sem o uso de inteligência artificial.
“Infelizmente, não podemos mais verificar como o manuscrito se desenvolveu desde sua concepção até sua conclusão”, dizia o e-mail da agência. A decisão foi tomada após um editor expressar preocupação com indícios de possível uso de IA em certas passagens do livro.
Reação do autor
Falade nega ter utilizado IA para escrever o livro. Em sua conta do Instagram, ele publicou mensagens de texto e e-mails de 2021 — antes do surgimento do ChatGPT — para demonstrar que já estava trabalhando na obra antes do advento das ferramentas de IA generativa. “Em seis horas após o surgimento dos rumores, perdi oportunidades nos EUA, no Reino Unido, traduções e adaptações cinematográficas sem sequer ter a chance de explicar meu processo de escrita”, escreveu o autor.
Em entrevista ao Wall Street Journal, Falade admitiu usar IA para pesquisar elementos do livro, mas negou que tenha sido utilizada na escrita em si. Ele também afirmou que a agência não o consultou sobre uso de IA antes de iniciar o leilão e que não consentiu com a execução de softwares de detecção sobre seu manuscrito.
Questões raciais no caso
Falade destacou que três autores negros receberam grandes contratos editoriais neste ano, e todos tiveram seus acordos cancelados ou prejudicados após suspeitas de uso de IA. “Parece haver uma pressuposição inquietante de que, quando um escritor negro produz uma obra que atrai atenção significativa, a obra não poderia possivelmente ser de sua autoria”, declarou o autor.
O caso se soma ao da autora Mia Ballard, cujo romance “Shy Girl” foi retirado das prateleiras pela editora Hachette em março, também após acusações de uso de IA. Ambos os autores negaram ter utilizado a tecnologia na criação de suas obras.
O mercado editorial em crise
O Plagiarism Today aponta que o caso revela uma mudança fundamental no mercado editorial: em 2026, autores são fundamentalmente considerados culpados até que provem o contrário. A percepção de uso de IA se tornou mais importante do que a realidade, e escritores precisam estar preparados para defender seu trabalho com evidências documentais.
Segundo o site, a proliferação de “AI slop” — conteúdo gerado por máquinas de baixa qualidade — inundou plataformas como Amazon, sufocando autores genuínos. Simultaneamente, ferramentas de IA foram treinadas com obras protegidas por direitos autorais sem consentimento, gerando litígios massivos. O paradoxo é perturbador: a indústria não age por princípios éticos, mas por medo de responsabilidade legal.
A situação de Falade serve como alerta para outros autores. Manter registros de todas as etapas do processo criativo — de rascunhos a anotações — tornou-se essencial para comprovar a autenticidade da obra. Em um mundo onde a IA generativa desafia a noção de autenticidade, a carga da prova recai sobre o criador.
