Uma imagem antiga do telescópio espacial Hubble, observada por acaso, levou astrônomos a uma descoberta que pode ajudar a revelar segredos da matéria escura. O trabalho, publicado por uma equipe de pesquisadores dinamarqueses, identificou pela primeira vez um fluxo estelar fora da Via Láctea, um tipo de estrutura rara que funciona como laboratório natural para estudar a substância invisível que domina o universo.
Um achado surgido em um trem
Tudo começou em junho de 2023. David Hendel, astrônomo de formação que hoje atua em finanças, seguia de trem para o trabalho em Nova York quando se deparou com uma imagem captada um ano antes pelo Hubble. A foto mostrava a UGC 9050-Dw1, uma galáxia anã ultra-difusa a cerca de 115 milhões de anos-luz da Terra, com uma fina faixa de estrelas se desprendendo dela.
Para Hendel, aquela faixa era um fluxo estelar, uma corrente de estrelas arrancadas de um aglomerado globular pela gravidade da galáxia. A combinação de cores e a trajetória curva apontavam na mesma direção. Se a leitura estivesse certa, seria a primeira estrutura desse tipo já encontrada fora da nossa galáxia.
Uma galáxia feita quase só de matéria escura
O encanto vem do tipo de galáxia envolvida. As chamadas galáxias ultra-difusas têm tão poucas estrelas que a maior parte da própria massa é atribuída à matéria escura, a substância que representa mais de 80% da matéria do universo, mas que ainda não foi detectada diretamente.
Descobrir um fluxo estelar nesse cenário dá aos cientistas um ambiente pouco contaminado por forças que atrapalham estudos parecidos feitos dentro da Via Láctea. Por isso a estrutura virou o foco do estudo.
Da suspeita à confirmação
Antes de chegar ao destino, Hendel fotografou a imagem, circulou o ponto e enviou a Sarah Pearson, professora associada de astrofísica. A mensagem deu início a um esforço conjunto que terminou confirmando o achado. A autoria do artigo coube a Pearson e Julie Kiel Holm, doutoranda na Universidade de Copenhague.
Quando decidiam o nome da estrutura, a equipe seguiu uma tradição e batizou a corrente de Oyashio, referência a uma corrente fria do oceano Pacífico, em homenagem a culturas indígenas que dão nomes de rios e mares a esses rastros de estrelas.
Para entender como o Hubble e outros instrumentos ampliam o conhecimento sobre o cosmos, vale conferir a nova galeria de galáxias divulgada pela Nasa com o telescópio Chandra. Avanços parecidos também ocorrem na exploração do Sistema Solar, como mostra a anomalia térmica descoberta abaixo do polo sul de Marte.
