Engenheiros da NASA conseguiram prolongar a missão científica da sonda Voyager 2 com uma manobra delicada batizada de “Big Bang”. A operação, concluída com sucesso no início de agosto, liberou energia suficiente para manter os três instrumentos científicos ainda ativos da sonda funcionando por pelo menos mais um ano — sem ela, um dos instrumentos teria que ser desligado antes do fim de 2026.
A sonda, lançada em 1977, é um dos dois únicos objetos feitos pelo homem que viajam pelo espaço interestelar. A manutenção é feita a quase 19 horas-luz de distância: cada comando leva cerca de 19 horas e meia para chegar à Voyager 2, e mais outras tantas para a resposta voltar.
O que é o “Big Bang” da Voyager 2
O apelido, incomum para uma missão da NASA, se refere a uma troca coordenada de dispositivos de energia. Os engenheiros desligaram simultaneamente três aparelhos — um antigo gravador de fita e dois aquecedores — e ligaram três outros dispositivos de menor consumo: dois aquecedores diferentes e um instrumento de propulsão.
A troca reduziu a demanda de energia em quase 10 watts por ano, sem deixar que nenhum componente crítico esfriasse demais. “Neste ponto, quase tudo funciona como aquecedor, independentemente do que foi projetado para fazer”, disse um dos engenheiros da missão.
A parte mais difícil é o aspecto simultâneo da operação: como os comandos levam cerca de 20 horas para chegar à sonda, a troca teve de ser planejada sem a possibilidade de monitorar ou ajustar em tempo real. A Voyager 2 passou por testes de potência e térmicos em maio e junho, e o “Big Bang” completo foi executado em julho.
Por que a energia está acabando
As Voyager são alimentadas por geradores termoelétricos de radioisótopos (RTGs), que convertem em eletricidade o calor da decomposição do plutônio-238. Como o combustível se esgota continuamente, cada sonda perde cerca de 4 watts de potência por ano.
Após quase meio século de operação, a margem de energia das naves ficou crítica. Desde 2024, a NASA foi obrigada a desligar dois instrumentos científicos em cada uma das sondas. A Voyager 2, por exemplo, teve o instrumento de ciência de plasma desligado em setembro de 2024 e o de partículas carregadas de baixa energia em março de 2025.
No estado atual, a Voyager 2 mantém três instrumentos em operação: o magnetômetro triaxial, o subsistema de ondas de plasma e o subsistema de raios cósmicos.
Próximos passos da missão
O sucesso do “Big Bang” abre caminho para a mesma manobra na Voyager 1, que está mais distante da Terra. Segundo a NASA, o teste de potência na sonda gêmea já foi realizado com sucesso, e a troca completa deve ser concluída nas próximas semanas.
A expectativa dos engenheiros é que a manobra dê até dois anos extras de operação a cada sonda. A Voyager 1 deve atingir a marca de um dia-luz de distância da Terra em novembro deste ano — cerca de 25,9 bilhões de quilômetros. Em 2027, as duas sondas celebram o 50º aniversário de lançamento no espaço, um marco que parecia inimaginável quando as missões foram planejadas.
Mesmo com a economia de energia, o fim da missão continua inevitável. A radiação, o frio e o envelhecimento dos componentes deixam muitas formas de a jornada terminar que não têm relação com o declínio anual de potência. “As pessoas amam essas naves e farão de tudo para vê-las ter sucesso”, disse um dos engenheiros do JPL.
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Mais detalhes sobre a manobra estão no blog oficial da missão, mantido pela NASA.
