Uma crescente parcela da geração Z está trocando smartphones por “dumb phones” — aparelhos básicos que fazem apenas ligações e enviam mensagens de texto. Dados do Google Trends mostram que buscas por esses dispositivos aumentaram significativamente desde 2020, e o subreddit r/dumbphones já conta com 179 mil visitantes semanais.
A tendência reflete um movimento de desconexão digital entre jovens que sentem que a dependência de smartphones está afetando sua saúde mental. Segundo dados da YPulse, 28% dos adultos da geração Z demonstram interesse em adquirir um dumb phone — percentual maior que o dos millennials (26%).
Números que explicam o fenômeno
Um estudo da Universidade de Texas em Austin, publicado no PNAS Nexus, descobriu que bloquear o acesso à internet em smartphones por duas semanas resultou em melhoria significativa da saúde mental para 91% dos 467 participantes. A atenção sustentada melhorou em níveis comparáveis ao efeito de antidepressivos, segundo o pesquisador Adrian Ward.
Outro dado revelador: entre 2021 e 2024, as vendas de “brick phones” para faixas etárias de 18 a 24 anos cresceram 148%, enquanto o uso de smartphones no mesmo grupo caiu 12%, de acordo com o Partners Universal Innovative Research Publication.
Como funciona na prática
O mercado oferece uma gama de opções: desde flip phones ultra-básicos até dispositivos híbridos como os da Dumb.co, que incluem Spotify, Uber e GPS, mas bloqueiam redes sociais. A Nokia relançou versões atualizadas de seus icônicos flip phones.
O psicólogo Jonathan Haidt, autor de “The Anxious Generation”, argumenta que o cérebro da geração Z se desenvolveu em torno da conectividade constante de uma forma sem precedentes. Para ele, a troca por dumb phones representa uma tentativa de recuperar o controle sobre a própria atenção.
Limitações do movimento
Apesar do entusiasmo, pesquisadores reconhecem que viver sem smartphone traz desafios práticos: autenticação de dois fatores, aplicativos bancários, QR codes e navegação por GPS. Muitos usuários mantêm o smartphone para emergências ou viagens internacionais.
O movimento dos dumb phones também se conecta com uma mudança cultural mais ampla: o “dopamine diet” — uma redução deliberada do estímulo que os smartphones foram projetados para fornecer. Psicólogos como DiMartino, do New York Institute of Technology, explicam que o uso compulsivo de smartphones funciona no cérebro da mesma forma que outros comportamentos viciantes.
Para o Brasil, onde o tempo médio de tela entre jovens pode ser ainda maior, a tendência representa uma oportunidade de reflexão sobre o papel da tecnologia na vida cotidiana. Especialistas alertam, porém, que a desconnectedade total pode ser inviabilizada por aplicativos essenciais como PIX e banking.
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